RONDÔNIA: LCP é um grupo de sem-terra ou uma organização paramilitar?

Como definir um grupo formado por centenas de pessoas armadas que ocupa propriedades privadas mediante o uso da força e à revelia do ordenamento jurídico? Organização criminosa? Grupo paramilitar? Em Rondônia, esse grupo é conhecido como LCP – Liga dos Camponeses Pobres. Parte da imprensa, no entanto, costuma classificá-lo como um "movimento social dissidente do MST".
Segundo o autor deste artigo, a atuação da LCP ocorre sem uma resposta efetiva do Estado. Desde 2020, o grupo ocupa a Fazenda Nor-Brasil, propriedade de aproximadamente 14.247 hectares, dos quais cerca de quatro mil já são produtivos. Como determina a legislação ambiental, aproximadamente 35% da área permanece destinada à preservação da vegetação nativa.
Ainda de acordo com o articulista, integrantes da LCP circulam portando armamentos como fuzis calibre 7,62 e .30, espingardas calibre 12 e coletes balísticos. Na avaliação do autor, a estrutura e a forma de atuação do grupo se aproximam mais de uma organização paramilitar do que de um movimento voltado à reforma agrária.
O artigo afirma que os proprietários da Leme Empreendimentos e Participações Ltda. deixaram de retornar a Rondônia em razão de ameaças contra suas vidas, embora tenham adquirido legalmente a fazenda em 1995. Atualmente, permanecem em Brasília enquanto buscam restabelecer o direito de propriedade assegurado pelo artigo 5º da Constituição Federal.
Na visão do autor, chama atenção o fato de que, enquanto em outros estados a morte de agentes de segurança costuma provocar uma resposta imediata das autoridades, em Rondônia a situação teria seguido outro caminho.
Em 3 de outubro de 2020, o tenente da Polícia Militar de Rondônia José Figueiredo Sobrinho foi morto em uma emboscada nas proximidades da fazenda enquanto pescava com amigos. No dia seguinte, durante a operação para localizar os responsáveis pelo crime, o sargento Márcio Rodrigues da Silva também foi morto, e outros três policiais ficaram feridos.
Já em outubro de 2021, dois suspeitos apontados pelas autoridades como integrantes de uma quadrilha de invasores de terras, Gedeon José Duque e Rafael Gasparini Tedesco, morreram após troca de tiros com policiais militares do Batalhão de Operações Especiais.
Assassinatos, emboscadas e impunidade
O articulista destaca que, em 26 de novembro de 2025, o sobrinho de um dos proprietários da Leme Empreendimentos sobreviveu a uma emboscada na qual sua caminhonete blindada foi atingida por mais de cem disparos de fuzil calibre 7,62. Segundo o relato, um dos projéteis perfurou a blindagem e atingiu seu pé. Ele permaneceu escondido na mata durante toda a noite até ser localizado e resgatado pelas forças policiais.
Em 14 de abril de 2026, um policial civil aposentado foi morto durante um novo ataque à sede da propriedade. Na mesma ocasião, quatro trabalhadores desapareceram após fugirem para a mata.
Além desses casos, o ex-gerente da fazenda, Sécimo Mineiro dos Santos, de 62 anos, foi morto com mais de 30 disparos em 2022.
Diante desse histórico, o autor questiona quantas mortes e quantos episódios de violência ainda seriam necessários para que o problema recebesse maior atenção das autoridades estaduais.
O artigo cita ainda dados do INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária e da FPA – Frente Parlamentar da Agropecuária, que, segundo o articulista, apontariam crescimento das ocupações de propriedades rurais durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em comparação com anos anteriores.
Ainda conforme o texto, nos três primeiros meses de 2023 o número de invasões teria superado todo o volume registrado em 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonaro. Em 2024, dezenas de propriedades foram ocupadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra durante o chamado Abril Vermelho, em 11 estados brasileiros.
Na avaliação do autor, poucos governadores adotaram uma postura firme diante das invasões de propriedades rurais. Ele cita como exemplos Jorginho Mello, em Santa Catarina, Tarcísio de Freitas, em São Paulo, e Ronaldo Caiado, em Goiás.
Em 30 de outubro de 2021, a Polícia Militar de Rondônia realizou a Operação Nova Mutum para cumprir mandados judiciais de reintegração e manutenção de posse. A operação durou duas semanas, mobilizando cerca de 400 policiais militares, 47 agentes da Força Nacional, equipes médicas da corporação, assistentes sociais e integrantes do Corpo de Bombeiros.
Segundo informações da Polícia Militar, aproximadamente 300 famílias foram retiradas da área, que permanecia ocupada havia quase quatro anos.
De acordo com dados oficiais citados pelo autor, a operação consumiu mais de R$ 1 milhão em diárias para os policiais envolvidos e cerca de R$ 535 mil em combustível para as aeronaves empregadas na ação, além da utilização de 80 viaturas.
Durante o cumprimento das decisões judiciais, o STF – Supremo Tribunal Federal determinou a suspensão da reintegração de posse em duas fazendas. A decisão foi cumprida pela Polícia Militar e, segundo o articulista, permitiu o retorno de integrantes da LCP à Fazenda Nor-Brasil.
Ao concluir o artigo, o autor sustenta que a ocupação da propriedade já dura seis anos e afirma que a ausência de uma solução definitiva, seja por meio da retirada dos ocupantes ou da desapropriação da área com a devida indenização aos proprietários, contribui para a permanência da insegurança jurídica e da violência na região.
Eduardo Negrão é jornalista e consultor político. Instagram: @prof.eduardonegrao
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